Ficou famoso por ser padre e votar “Sim” à interrupção voluntária da gravidez. Manuel Augusto da Costa Pinto, de 80 anos (pediu dispensa da actividade pastoral, aos 75), a viver em Viseu, é um dos maiores críticos à actuação da Igreja Católica. Dois anos depois do “Sim”, resolveu publicar uma carta aberta “aos irmãos bispos, sacerdotes, diáconos e demais fiéis”, onde justifica a sua opção. Numa conversa franca e sem meias palavras, fala do casamento, da mulher, das suas relações amorosas, do divórcio e do casamento homossexual, quase sempre em contradição com a Igreja, seguindo o evangelho. Natural de Cetos de Montemuro, concelho de Castro Daire, guardou cabras e ovelhas até aos 14 anos. Ordenou-se padre aos 37 anos, depois de 12 anos de vida laica. Consumidor da internet, tem também a paixão da escrita. Está a escrever cinco livros ao mesmo tempo – “um deles de poesia”. A “Carta Aberta” está nas livrarias desde segunda-feira.
Considera-se polémico ou gosta de ser polêmico?
Eu gosto de ser polémico, porque a polêmica é um caminho para a verdade, mas não sei se me considero polémico.
Tem a noção de que está a gerar polémica ao publicar uma “Carta Aberta”, dirigida à Igreja Católica acerca do voto “Sim” ao aborto?
Não pretendi levantar agora a polémica, ela existiu então e continuará a existir.
Porque está ainda mais convicto do “Sim” à interrupção voluntária da gravidez?
A polêmica fez-me reflectir e eu questionei-me: se tanta gente se escandalizou, quem sabe se estou enganado? Mas, cheguei ao fim do caminho e pensei: afinal tenho razão. Não posso ir contra o evangelho.
Contra o seu evangelho?
Não, o evangelho é de todos, simplesmente não o lêem. Se lerem o evangelho, é tudo claro. Jesus perdoou uma mulher que, por lei, estava condenada à morte e Jesus mandou-a em paz. Eu cito as três mulheres do evangelho, que não têm nome próprio: a mulher adúltera, do evangelho de João, a pecadora, do evangelho de Mateus, e a samaritana, do evangelho de Lucas. Essas três mulheres fazem o evangelho do perdão da mulher que, porventura é obrigada a cometer o aborto. Eu não defendo o aborto, o aborto está proibido, mas, às vezes, é inadiável. Nós, ou vamos ao evangelho, ou arruinamos a Igreja. Nós não temos a Igreja de Cristo, temos a Igreja imperial.
Mas continua a servi-la?
Eu sirvo-a porque, por baixo está a Igreja Cristã, mas está com essa casca toda que se acumulou com o Império Romano. Porque é que o Papa manda em toda a Igreja? Porque o imperador mandava em toda a Igreja.
Os homens que servem a Igreja, servem-na mal?
É isso mesmo.
Levanta a sua voz, no sentido de mudar alguma coisa?
Sim. Acredito que, a longo prazo, pode mudar alguma coisa. Mas, se a Igreja não se modificar, vai acabar numa pobre seita religiosa, não sou só eu que o digo, está no livro “Os Corredores do Vaticano”, muito bem feito.
Espera respostas depois da publicação da “Carta Aberta”?
Não sei como as pessoas vão reagir ou se vão reagir. Eu cito alguns nomes concretos, porque entendi que devia citá-los. A atitude deles é uma atitude que não me magoa pessoalmente, mas magoa-me como cristão. Eu trabalhava para eles e, depois não me chamaram nunca mais, nem me disseram nem mais uma palavra.
Na altura em que defendeu o “Sim” no referendo disse estar arrependido de ter revelado essa sua intenção durante uma missa em Lordosa.
Teria preferido não o dizer daquela maneira, era o domingo da misericórdia e vinha a propósito o perdão. A população ficou zangada.
Fonte: Jornal do Centro